terça-feira, 26 de maio de 2015

Sem encaixe



Alma de expiações,
alma de adivinhações.
Sabemos que a compreensão
é uma ferramenta de várias vértices,
composta por um peso sem medidas.
Tanto temos para viver
que não cabe aqui dizer as regras.
Mas nas adivinhações, 
nas expiações, os desenhos,
formam emoções
que não se explicam,
vagueiam para nosso lado mais sombrio.
Hoje uma pontada no peito,
aperta as sensações que não cabem,
nem perguntas, nem respostas.
A condição humana nos leva à surpresas,
as vezes sem palavras.
Medito horas em fios, que percorrem
como algo que talvez acabe em novelos,
labirintos, desencantamentos.
A dor de cada um deve ser respeitada,
pois não há explicação para cada fato.
Há sim uma somatória de acontecimentos,
acumulados no decorrer de uma vida.
Parte desses acontecimentos,
são fatos que criamos, parte,
são fatos acometidos por outras vidas.
Quem dera minha ingenuidade me absolvesse
apenas na alegria de ter feito,
mas não há absolvição sobre o tempo.
Ele pode curar, mas também incriminar
as escolhas sentidas, recolho o que resta, 
há algo que não me sustenta.
Fecho meus olhos para não ouvir
a boca que se amarga.
Rumores sem sons atormentam,
vida sem trégua, que não cabe em mim.

domingo, 24 de maio de 2015

Translúcida (poema dedicado a minha amiga Cleuza Santos Almeida)





Há pessoas que nascem com um
a genética distinta,
pode a condição de vida a limitar em compartimentos,
etiquetas e citação de regras,
mas como uma planta daninha, aflora.
Para estes subjugados pela ditadura da ordem,
qualquer fresta é um sinal de liberdade.
Controlar é impossível, já que o estado de felicidade,
transmuta a própria consciência em vigor de juventude.
O perigo está em apenas gostar:
do amarelo, laranja, vermelho, das cores quentes,
em seu corpo de estrelas;
única medida gravitacional que às orientam.
As ilusões são os caminhos,
estes seres não se abalam com seu entorno,
já que seu brilho dissipa a escuridão.
E da vida, apenas uma regra: acreditar no impossível,
que são estes inebriante raios indomáveis,
uma eletricidade de alta voltagem,
que as conduz para além da estética,
à integridade absoluta do ser.
Pois desta vida: se há salvação?
Salvam-se apenas os que acreditam em si mesmo.

Sem reservas




Desculpe-me se não existe mais romance em mim,
se a noite dorme em meus braços toda vez
que eu penso em sair.
Sabia que há horas sem fim em meu relógio
e nem mesmo sei o peso que isso tem?
Deve ser porque dei tempo demais pra mim,
e descobri que ele é um ladrão de corpos.
O que é estar pronto?
É não cometer nenhum deslise,
ou é acontecer em cada segundo?
Se você quiser ter um bom romance comigo
tem que estar disposto em pular o cercado
e olhar para a lua sem piscar,
pois agora é tarde.
Eu já não posso segurar o vento,
só posso observar as folhas e o céu cinzento.
Porque ir para o lado mais fácil
é roubar o relógio da mão do tempo,
e lamber as cerejas do bolo,
ou ainda esquecer a falta que tantas coisas
faz em mim, como a coleção de palavras
que guardei sob a pele, quando no ultimo outono
eu desfolhei no vento com tanta sinceridade.
Não me guardei em potes como conserva,
apenas vivi todo o amor que poderia sentir
sob o tempo que fiz de mim sem reservas.

Mortos vivos



Atenção população:
morre a cultura, a educação!
Morre quem mais lhe dá vida.
O que será da humanidade,
se não houver a arte?
A liberdade vivida na subjetividade 
é o que mantêm a lucidez, o equilíbrio,
sem elas seremos mortos-vivos!

Amados


Caminhada



Escolhemos os caminhos 
que o sentimento por algum motivo 
tenta entorpecer ou tornar realidade. 
Este é o mistério, 
quando nos dispomos a desvendar.
Damos um passo à frente de nós mesmos,
quando apreciando a caminhada.

O vazio


Tocava-me numa frequência baixa, 
com fins expressivos.
Utilizava sempre uma estrutura repetitiva, 
um rito de fé religiosa, 
até me chamava de santa.
Sem correntes 
mantinha-me em sua cama.
Foram anos sem troca.
Ocidental ferramenta:
entre a agulha e um novelo de linha sem ponta.

Atentado contra o pudor





Estas mãos metafóricas,
sinestésicas, 
deixam apenas um sim ...
deve ser o blues baby. 
Deve ser o blues acetinado 
que toma os sentidos. 
Sei tudo sobre as delícias desta vida, 
quando o som toca as cordas 
e me acorda por dentro. 
Ainda bem que ultrapassa 
os holofotes, ainda bem 
que neste acorde 
os gatos viram pardos 
e se misturam na noite. 
Não há como distinguir os afetos 
quando colocados na trama 
da cama de cada corda. 
Um roronar de arrepios: 
- o que pode haver mais que este afeto? 
Um desapego total, 
uma entrega silenciosa 
a intimidade posta à prova, 
assim é um blues, baby ... 
assim é o blues...

O amor







Quando o amor acontece ele vem aos passinhos 
para não provocar uma revoada aos pombos. 
Se você precisar de um tabuleiro de cartas marcadas, 
ai não tem graça, perdeu o seu brilho. 
Quando sua estrada escolhida, for a mesma da outra vida, 
então não será preciso viajar nas paralelas, 
e sim, unir as mãos e caminhar juntos, no mesmo sentido. 
Você pode rodar o mundo inteiro buscando pela pessoa, 
mas ela pode desde sempre estar ao seu lado, 
porque os olhos do coração não precisa de bússola, 
de relógio ou carros, ou de grandes eventos,
ele precisa de pulso, de vida, de coragem,
porque ser feliz precisa de entrega.


Uma linda mulher



Não posso colocar aqui um comentário como:
bela, maravilhosa, radiante .... etc ...
Porque já me expressei assim antes. 
Pela primeira vez, as palavras saíram correndo de mim. 
O estômago, a cabeça, os batimentos, 
a respiração de repente se misturavam em arrefecimentos instáveis. 
Fiquei simplesmente paralisada, 
demorei alguns segundos para retomar a consciência 
no tempo atual, o relógio se perdeu no tempo das memorias, 
só então após alguns segundos, depois de um verdadeiro hiato, 
eu retomei e disse a mim mesma: 
- Como um momento pode ser tão terno, a visão tão sublime. 
Encantadoramente, caminhando, vinha ela toda sorridente,
como quando em seus primeiros passos
pedindo-me para lhe dar a mão. 
Nada pode apagar a emoção que senti, tremi. 
Desculpe-me mas precisei parar para dar uma respirada. 
Foram tantos anos juntas, que sei lá, 
pensei que sempre seria assim. 
Suas roupas me enganaram,
essa sua forma casual de ser,
tudo tão delicado que nem reparei, 
refletindo agora, à bem da verdade, eu me neguei a ver. 
Aí vem você, toda de branco sobre o tapete vermelho, 
tentando esconder-se nos trejeitos de menina, 
mas que toda sua incontrolável beleza, 
veio assim denunciada em seu batom vermelho, 
desta vez não deixei-me enganar, 
estava sim, perplexa, diante de uma linda Mulher.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Fel social


Velai pelas nossas cabeças, plantai sementes do amanhã, 
salvem as crianças, da decadente e mesquinha sociedade que construímos.
Cuidem de nossas crianças e não as colham antes do tempo.
Salvem-nas dos dogmas, e das cabeças economicistas
que as colocam em cárceres privadas de luz. 
Algumas políticas sociais, estão enganando a ordem das coisas,
assim como quando toda a criança brasileira
é colocada expostas em sua frágil estrutura, na ausência de cuidados.
Isso não é casual, e nem tão pouco sensacional,
isso é crime, é desumano, desarranjo, verme, ferida, escória,
infelicidade para a pátria, infâmia maternal.

terça-feira, 28 de abril de 2015

E por falar em Abujamra, aqui vai minha saudação véi, entoadas em suas reflexões....




Sou um crítico de mim mesmo,
sou um desesperançado
que invado sem permissão sua hipocrisia.
Mau amado: - não!
Apenas é esse meus mais jovial retrato
o da transgressão, da delinquência,
que fez de mim o rei dos CEU'S.
Animado, sem graça,
que provoca os que lá vão para vê-lo,
e trocar um pouco de energia
porque os jovens estão à procura de algo,
talvez uma gargalhada grunhindo em desespero,
afim que se possa disparar as expressões reprimidas.
E assim, parti nesta noite, como abrindo uma outra porta,
talvez a mesma que Thomas Bernhard abriu,
sem ao menos se despedir,
porque por ironia eu estava dormindo,
logo eu que zelei com cuidados a minha mente
para sempre mantê-la acordada.
Talvez esse seja o segredo da vida, o inesperado.
Será que os provocadores se despedem,
ou ensinam: a olhar, a escutar,
as coisas que podem não terminar bem,
porque o fracasso e o sucesso, ferosfera,  
são iguais porque os dois são impostores
.
(in-memoriam - faleceu em 28/04/2015) 

domingo, 26 de abril de 2015

Adultos sem cultura

                                    (Governo Alckmin encerra convênio para curso de Alfabetização para adultos)

Sem mãos 
sem fala
sem pernas ...
um vulcão atônito me toma,
menos educação para adultos,
isso significa: - menos cultura
o que equivale a um retrocesso
um hiato no tempo.
Tirar do povo; - e o que o povo espera?
Governantes imperialistas
somam filas para ignorância
perco meu chão, minhas águas.
Epidemias e mortes,
velai povo pelos oprimidos.
Como quem chora, silencio: 
- no próximo outubro quais serão as pautas?

Amor e despedida




- Eu te amo: disse eu meio insegura,
depois de horas tentando decifrar seus códigos, 
e já com os desejos todo latejando em meu corpo,
e, imaginando suas mãos por entre as minhas pernas.
Tive que segurar meus gemidos.
Você continuou com sua fala acidental, 
como de costume,
encostando sua boca nos meus ouvidos, 
mantendo-me suspensa, como se tivesse a intenção
de contar-me um segredo.
É porque são ocidentais suas palavras, 
quando embargadas pela procura das justificativas.
Na medida certa, inclinando a cabeça para a rua,
olhou-me como quem mostra a estrada.
Apertei sua mão, beijei seu rosto, 
e lhe disse mais uma vez: - amo você;
então você com seu olhar me abriu pelo meio, e partiu.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Liberdade



Sinto informar à quem possa se incomodar,
que decreto hoje, que só tomarei nota 
de tudo que tocar a minha alma com importâncias.
Declaro também que acredito
no espírito e que este tem morada na alma
e que ambos moram no infinito,
e que por hora nesse meu corpo habito.
Ainda declaro também,
que o que vivi é o suficiente
para eu decidir o que me cabe.
E que portanto, acredito que dois corpos
não ocupam o mesmo lugar no espaço.
Sendo assim, me declaro livre.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A Arte e seu portal



A Arte transcende,
com a mesma frequência dos sentimos.
Nenhuma outra porta
nos torna tão inteiros como a Arte.
Ao atravessarmos este portal,
nos encontramos com todas as peças
de nosso quebra cabeça.
Viver sem Arte é como 
o Narciso viver sem espelhos,
Ariadne sem a corda,
Alice sem o País das Maravilhas,
o canto sem a voz
e a poesia sem a boca.

O mundo

A subjetividade pode alcançar caminhos
provocando sensações criativas,
os pés alcançam as portas
as mãos as janelas
e a visão o mundo.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Origem

Cada um sente seu pertencimento,
é fechar os olhos e deixar-se ir e vir.
Os caminhos são trechos
que temos que percorrer.
Aquele que tem medo em seguir,
não sabe nada de sua raiz.
Pertencer não é tomar para si,
pertencer é fazer parte,
é o sentimento certeiro de completude,
o seu lugar.

domingo, 12 de abril de 2015

Silêncio

Quando seu silêncio for tão profundo quanto a sua dor,
é porque chegou o limite para um grito.
Quando sua alma somente enxergar dor, então grite.
Grite sempre que seus pássaros forem presos na gaiola,
porque os pássaros são sempre para voar em liberdade.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Porque sim





Ainda bem que existe Walt Whitman,
e suas "folhas na relva",
suas delicadezas bucólicas,
que servem para todos os poetas 
e aos não poetas também.
Ainda bem que as folhas das gramas
podem se estender sob o céu infinito
e ficar assim à me apreciar sem segredos
por entre, por embaixo
e por minhas sombras, sem conflitos.
Só para eu poder me assentar
com minhas formas de sonhar,
em me redescobrir sempre e sem pressa.
Ainda bem que Walt Whitman me isentou dessa culpa ,
em ser demasiadamente humano.