sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Leveza (para Clarice Felipe)



Passava por sua janela



uma brisa fria



que a deixava introspectiva



e angustiada.



Contava junto a sua família



as aventuras de seus planos,






sentia com isso poder



controlar suas paixões.



Mantinha em sua leveza,



surpresa que se via por seus olhos



boiando em emoções insondáveis.



Aprendeu que na vida há valores



que não se desprendem da tortura



ficando colados na memória.



Extasiou-se irreversivelmente



na experiência do descontrole



do primeiro contato,



assim fez perdurar eternamente



todo o envolvimento da vida.



Como se a leveza das plumas



em vestido de festa



fosse toda a contrariedade



real das coisas que ficam.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Respiração























Suspirava respirando dentro de um invólucro apertado. 
O novelo se contorcia arredondando os braços.
As cores mãos em mãos num arcobaleno 
bailavam em movimentos multicor cítrico. 
O equilíbrio perfeito, pausado no eixo de partido, 
ora siguezagueava brasileiramente numa dança monocórdia. 
A cultura além fronteira brincava 
em minha pátria como páprica excitada. 
a respiração já não mais apertada corria livre, 
sem métrica. Livre, livre como borboleta 
perfeitamente frágil, em sua tranquilidade azul, 
a mutação congênita tramitava silenciosamente, 
figurando dentro e fora a leitura da respiração,  
incorporada na movimentação, 
que abrangia as cores e todo o espaço afim.

A festa



Os convidados festejavam em suas fantasias.

As tribos vieram de todas as partes

com seus representantes etéreos.

Sentavam-se num ritual de igualdade,

dispondo-se à jogos de feitiçaria.

A música colorida deu o tom da dimensão.

A dança mediana surpreendia.

Na circunstância da noite

todos se deram aos ritos da igualdade.

Amanheceu eles se diluíram,

nada mais complexo do que se vestir de homem comum.

Amanhecer


Desculpe se arrombei as travas de sua porta
e toquei alto o seu piano,
se colhi suas flores antes do tempo.
Desculpe se hasteei minha bandeira
de cetim cor de carne
e atravessei o pátio com minhas incertezas.
Desculpe se tenho uma leviandade material dissimulada,
se meus olhos refletem loucuras
e a dor vomita o exercício do empata foda que nem Bach mais relaxa.
Desculpe se meu espírito perambula por sua janela,
como cão que voa em seu telhado,
lambendo seu vinho escorrido sobre a mesa
comendo suas migalhas caídas no chão.
Desculpe se escorreu pelos seus ouvidos a minha voz tensa,
é que o relógio se perdeu no tempo
pelo descompasso dessa minha desilusão.
Sei que ao amanhecer esta noite eu ascendi,
como ascende uma lâmpada
e tentei destravar o silêncio,
já que nossos olhos não se vêem,
a minha língua não lhe sentiu
e o meu corpo travado ainda dói.

Rumo norte



Veio em visita, sempre deixou os sapatos em casa,
partiu deixando pegadas.
Não sabia que doía tanto a saudade.
Encaixotei minhas coisas,
e tranquei a porta, e também parti.
Os sonhos se fizeram névoas.
Busquei em mim conter os arrependimentos,
foi fácil, nunca fizemos contrato,
pois no amor, penso eu, não há contratos.
Consegui abrir as caixas
depois de algum tempo
e seu cheiro ainda estava lá.
Fui na maternidade, na floricultura, nos bares,
na biblioteca, na vila, na praça,
todas as cidades que visitei,
tinha sua nítida presença cravada em mim.
Aprendi a ser Sherazade e diluir o tempo em histórias.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Cai neve mas faz a mesma lua (para Chico e Neuza)


Cai neve mas faz a mesma lua,
talvez a mesma água, talvez a mesma brisa, recados daqui.
O que é o sentimento de um estrangeiro?
A solidão, a tristeza, o reconhecimento de sua pátria na distância?
Índios, talvez também não sejam nossas verdades brasileiras.
Aqui é assim, estátua de deus aberta, luzes que ofuscam,
pobreza desolada que assusta, ouro de tolo!
Qual é o verdadeiro lugar?
As Moiras na gruta escura aguardam o futuro tecendo os fios da vida,
sem contar nada para ninguém.
O pensamento lá fora toma a dimensão do mundo,
num sopro tudo é neve, tudo é vento, um deserto de gente.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

TRAVAS DA GAVETA


Boa noite!
Cheguei tarde?
É que tive problemas com as travas da gaveta,
no encontrar o baton que coloriu minha boca a noite passada.
Desabotoada me sinto, tanto, que minha pintura íntima escorreu pela cidade.
Boa noite?
Tentei engajar minha lucidez antes da sua,
dentro do meu corpo miudo
compactuado com a brutalidade deliberada de sua crueza.
Boa noite!
Esperei de você a presença,
para fechar o meu vestido,
e me alargar no vão entre o céu e o inferno
que conduz a tranquilidade a minha alma.
Boa noite...

HERÓIS (para Flávio)

Existem pessoas de diferenes tribos, pessoas heróis, pessoas estrelas. Existem pessoas que vivem sem sombra, sem imediatismo. Pessoas que se mantêm sob crença de suas idéias. Pessoas que não se defendem, vivem... Enquanto seres humanos precisamos de crenças. Pela lógica do pensamento comum a cabeça é o guia, no entanto o que dignifica a pessoalidade, é o princípio de cada um, o cumprimento dos contratos estabelecidos. Os verdadeiros guerreiros centram sua luta por seus objetivos de vida, gerados por contrato de fidelidade, esses se tornam eternos. Que a força máxima que rege o universo possa proteger esses grandes guerreiros.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Ansiedade



Ligar para você ultimamente

é como bala de menta, perco o ar.

Tomar água em cima então, gela.

Gelo nos dedos, no estômago, pulmões.

Pulmões inspiram fantasias ao cérebro.

Murchei culpa das flores que não lhe entreguei.