quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Amanhecer


Desculpe se arrombei as travas de sua porta
e toquei alto o seu piano,
se colhi suas flores antes do tempo.
Desculpe se hasteei minha bandeira
de cetim cor de carne
e atravessei o pátio com minhas incertezas.
Desculpe se tenho uma leviandade material dissimulada,
se meus olhos refletem loucuras
e a dor vomita o exercício do empata foda que nem Bach mais relaxa.
Desculpe se meu espírito perambula por sua janela,
como cão que voa em seu telhado,
lambendo seu vinho escorrido sobre a mesa
comendo suas migalhas caídas no chão.
Desculpe se escorreu pelos seus ouvidos a minha voz tensa,
é que o relógio se perdeu no tempo
pelo descompasso dessa minha desilusão.
Sei que ao amanhecer esta noite eu ascendi,
como ascende uma lâmpada
e tentei destravar o silêncio,
já que nossos olhos não se vêem,
a minha língua não lhe sentiu
e o meu corpo travado ainda dói.